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9 de maio de 2013



Ainda existem românticos no mundo e é por isso que as flores ainda vivem, porque o ser humano em seu mais complexo egoísmo já teria as arrancado todas.
Ainda existem românticos, porque apesar da quantidade de divórcios, ainda existe o casamento, porque os pontos turísticos das cidades lotam em época de feriado, porque há mais bebês registrados do que abandonados. Mas aqueles românticos que se manifestam abertamente, ah sim! Esses são raros... Mas são muitos os que possuem o romantismo dentro de si, mesmo que pouco, mesmo que singelo.
Ainda há românticos, porque os bancos de doação de sangue não estão vazios, porque há flores recentes no cemitério, mesmo que a lápide seja antiga. Porque ainda existem aqueles que acreditam na solução do mundo e são tão românticos, tão sonhadores.
Ainda existem os pescadores, daqueles que pescam apenas para admirar e devolver para o mar.
Ainda existem românticos, porque os cinemas estão lotados de pessoas que não assistem aos filmes, porque ainda há sorrisos verdadeiros e olhares sinceros, porque livros sobre o amor ainda são escritos e vendidos, assim como a música sobre nós dois que ainda toca no rádio, assim como Renato Russo ainda é escutado.
Agora, se são românticos tradicionais ou não, não sei dizer, porque esse tipo de romantismo parece ter dormido no século XIX e esquecido e acordar. Não sei se Julietas e Romeus ainda habitam esse mundo, mas mesmo que os românticos criados como nas obras de Shakespeare não sejam encontrados, ainda existem românticos, de várias formas, em vários lugares, porque ainda há sonhos dentro de nós.

18 de março de 2013



Você costuma andar pelos mesmos caminhos de sempre, esbarra às vezes com alguém e segue sua jornada. Então um dia acorda atrasado porque o despertador não tocou, toma banho em cinco minutos e se veste em dois. Confunde a pasta de dentes com o creme de barbear, faz uma careta feia e xinga a primeira coisa que vê pela frente. Alcança as chaves do carro e a carteira, corre e engasga com o suco de laranja. É, seu dia tinha tudo para dar errado, mas então você vê toda a situação e começa a rir de si mesmo, faz do acontecimento seu espetáculo pessoal.
Nessa risada toda, nesse trânsito impaciente do caminho até o trabalho que você odeia, você percebe como aquele caminho parece diferente. Talvez um prédio que nunca havia reparado antes, a vendedora linda da loja de bugigangas, as árvores que mexem com o vento suavemente como em uma dança, alguns pássaros avulsos que olham curiosos para os carros e depois fogem.
É assim, de repente, que você percebe que nessa busca de algo para preencher o tempo, fazê-lo não ser somente um vão entre sua vida e sua história, acaba por transformá-lo naquilo que sempre condenou: alguém motor, monótono e previsível.
Decide sair da rotina, sai do carro e o deixa ali no meio da rua, sabe que com aquela quantidade de latas velhas demoraria duas horas até sair do lugar. Compra uma flor de plástico de uma velhinha, ajeita a gravata e passa as mãos pelo cabelo. Desvia de alguns carros parados, fala bom dia para um pedestre qualquer, entra na loja de bugigangas e dá a flor para vendedora linda.
Ela sorri, diz obrigada. Pergunta se já se conhecem e ele diz: "Há tanto tempo nos conhecemos. Há muitos outonos nos olhamos, mas nenhum de nós enxergou realmente um ao outro".
O inesperado ocorre assim, diante dos nossos olhos e muda muito do que há do mundo em nós.  Passa como um furacão que nos vira e desvira do avesso. Em um piscar de olhos acabamos por perceber que para as coisas mudarem às vezes apenas um despertador quebrado basta.

5 de março de 2013


Na vida caímos e aprendemos a levantar. Esse é o lema clichê que muitos adotam. 
Realmente, aprendemos sim a nos levantarmos. Sozinhos as vezes nos achamos completamente auto-suficientes. Distraídos, de repente aparece alguém que nos oferece a mão, ajuda-nos a sair do chão.
O tempo passa e acabamos nos acostumando a sermos ajudados, a termos companhia, a contarmos com aquele que supostamente ofereceria o apoio sempre.
Acontece que em determinado momento, se escolhemos a pessoa errada para nos ajudar, ela passa a derrubar e não mais erguer.
Acabamos ficando no chão outra vez, tendo que aprender a nos levantarmos sozinhos novamente.
O pior de tudo é que sempre vamos esperar por aqueles que nunca soltarão nossas mãos.

13 de janeiro de 2013


Ele acordou daquele incrível pesadelo aspirando por ajuda e acabou se encontrando em um pesadelo maior ainda: a triste realidade de sua vida.
Já estava ferido há cinco dias, sua cabeça tombava com o peso de seus pensamentos.
Tentara o sinal de fumaça, mas sabia que não o encontrariam. Não naquele lugar.
Estava sem voz depois de tanto gritar. Ainda enxergava, mas de nada adiantaria, não acreditava no que via.
Havia flores mortas pelo chão ou seriam seus sonhos que haviam morrido?
Buscou uma saída, mas ele sabia que não havia uma, até mesmo porque aquele lugar não fora feito para ter alguma.
Ele se lembrou da primeira vez que sentiu de fato a felicidade, fora em um lindo dia no parque quando percebeu que sua vida era perfeita. Mas ele cometeu o erro de duvidar da perfeição, acabou procurando erros, defeitos e a tristeza foi aparecendo.
Em vez de aproveitar o lindo presente da vida, passou a perdê-la tentando encontrar algo que poderia haver de errado nela, sem perceber que este que era seu maior erro.
Foi tão fundo, tão obcecadamente fundo, que foi entrando dentro de si mesmo, cada vez mais, sonhos dentro de sonhos, até chegar nos grandes pesadelos, até acabar trancado dentro de si, se perdendo gradualmente.
Como ele parece patético agora que percebeu o quanto poderia ter vivido se não tivesse se permitido ter medo de viver.
Olhou para o lado e viu mais uma flor morrer. Era a flor de sua lembrança mais bonita.
Passou três horas e ele estava mais uma vez irreconhecível.
Parece que à medida que nossos sonhos e memórias vão morrendo, acabamos nos tornando seres frios, mais longe do que há no significado de humanidade, mais perto da solidão.
Foi nessa solidão, no silêncio constante que ele se perdeu.
Quando as feridas em seu coração estavam praticamente cicatrizadas, curadas pela perda de seus sentimentos, encontrou o que parecia ser o fim do labirinto. Sabia que no lugar onde estava não havia saída, mas isso não queria dizer que o cenário não poderia se tornar algo melhor.
Seu coração apertou. Mesmo cicatrizado estava perdendo a força para continuar pulsando. Faltavam lembranças, sonhos, faltavam sentimentos, faltava vida.
Ele caiu ao chão, olhou em frente e finalmente viu, em seu último sopro de vida, seu último palpitar, o anjo que viera para salvar. Sentiu a felicidade passar como uma antiga amiga, mas fora isso apenas. Seus olhos se fecharam. Seu anjo chegara tarde demais.

12 de janeiro de 2013


Já era dezembro e ele ainda não havia recolhido as botas na soleira da porta.
Ninguém sabia ao certo há quanto tempo elas estavam ali, mas sabiam que o homem que as calçara se fora há muitas primaveras.
Ele gostava de recolher as maçãs que caiam em seu quintal, jogava-as em uma cesta e levava-as à vizinha, que por sua vez preparava uma torta e lhe fornecia metade.
Nos feriados ele dirigia até sua cabana do lago, que na verdade não ficava perto de lago algum, mas de fato era uma cabana. Lá ele se lembrava de sua amada, do seu cheiro de almíscar, do tom avermelhado de seus lábios e de como seus olhos de cobre eram arredondados. Ele também se lembrava de como era suave o toque de sua pele, de como suas meias pareciam quentes em seus pés minúsculos, do cheiro de chocolate que ficava na cabana após assar um bolo e de como ela o provocava quando fingia esquecer a toalha do banho em cima da cama.
Aquele homem partira e em seu lugar, ficara alguém que não se importava em colocar os calçados para o lado de dentro da casa. As botas já estavam desbotadas àquela altura.
Ao se olhar no espelho não mais se reconhecia. Suas rugas em torno dos olhos estavam acomodadas e suas mãos já não eram ágeis como antes. Não conseguia mais carpir com destreza, tinha dificuldades em abrir a janela e não conseguia se livrar da falta de vontade de levantar da cama. Tudo seria tão mais fácil se a chaleira não apitasse, se o maldito banco parasse de ligar, se os estranhos parassem de comentar, se o mundo parasse de girar, se ele parasse, se tudo acabasse.

Vivera quase que duas décadas esperando sua amada voltar. Queria sentir seu cheiro novamente, queria mergulhar em seus cabelos e se esquecer de levantar cedo para trabalhar. Queria que fosse ela a preparar a torta de maçã, não a vizinha. Queria que estivesse lá, porque era sempre ela que se lembrava de tirar os sapatos da frente da porta.


O monstro chorava sentado na montanha onde o mundo o isolara.
Suas lágrimas causavam uma tempestade lá em baixo.
Ele cansara de ser monstro. Queria ser gente, animal, coisa... Menos monstro, porque monstros têm o terrível destino da solidão.
Seus pulmões ainda estavam cheios pela mágoa, a chuva duraria uma eternidade.
Ele não queria ser monstro, nunca quis. Não fora ele quem escolhera esta vida.
Por ser diferente, por ser ele mesmo, era monstro. Mas não conseguiria ser como os outros seres humanos, já tentara e seu coração malvado de monstro doera.
Seu coração ruim desejava o bem dos outros, sonhava que ao menos suas lágrimas causadas pela tristeza pudessem servir de ajuda à humanidade. Mas que horrível ele era, se importar com quem não se importava com nada, não é mesmo?
O monstro, que carregava o sonho de ser amado, de poder amar e distribuir carinho, não foi aceito. Teria que ser monstro para sempre porque não conseguia abandonar suas idéias terríveis de salvar o mundo.
O monstro se calou. Seu choro foi interrompido quando resolveu se jogar da montanha e assim, nasceu o oceano. Mas o que o monstro não sabia, é que longe havia outros monstros. Monstros que partiram causando os desertos pela falta de suas lágrimas de lamentação e monstros que se juntaram para transformar humanos em monstros e assim, tentar transformar o mundo em um lugar terrivelmente lindo.
 
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